tem tempo para um café?





05.02.2020



Quem nunca deu uma pausa para “tomar um café”? As vezes esse café na verdade é um chá, um suco, uma água, um almoço, ou então é só uma pausa mesmo, sem café.





Dentro dos escritórios corporativos tomar um café pode significar: tomar decisões, estabelecer um laço político, compartilhar notícias confidenciais – “vou te contar, mas não abra para ninguém” –, comentar sobre um filme, discutir política, desabafar com um amigo, reclamar do chefe, contar da transa do fim de semana, pedir conselhos amorosos, dentre outras coisas.


Também pode ser aquele café que você quer chorar as pitangas, e seu interlocutor, ao invés de te escutar, fala mais e/ou chora junto com você – “amigo, torci o tornozelo no fim de semana”, “e eu que quase amputei a perna?”, normal.


Mas fora dos escritórios eu vejo o “tomar café” como sinônimo de “estabelecer relações”. Em outras palavras, tomar café com alguém, mais do que a possibilidade aumentar as doses de cafeína no corpo, eleva a nossa oxitocina, o hormônio que aproxima as pessoas.


Deixando esse lance dos hormônios de lado, que nem é muito a minha praia, o que posso dizer é que relacionar-se é humano e é uma das nossas necessidades psicológicas, inegociáveis.


Eu sei que tem muita gente por aí que fala “prefiro bicho do que gente” ou “não preciso mais conhecer gente porque será mais gente para odiar”, mas sinto dizer que, e sendo bem direto, o problema é você.


Se você não tem condições mínimas de estabelecer laços afetivos e lidar com outras pessoas, é muito provável que você não esteja num bom termo consigo, afinal, nada do que enxergamos de ruim ou repulsivo nos outros é fruto do acaso, sempre tem relação com nossos conteúdos psíquicos internos.


Além disso, tem aqueles que estão sempre ocupados, “vamos tomar uma café qualquer dia desses?”, “vamos sim, qualquer dia marcamos” e esse dia, obviamente, nunca chega.


Hoje tenho mais claro quanto fez falta não tomar mais cafés antes, me relacionar com mais pessoas, conhecer outros universos, saber de tendências ou simplesmente saber da pessoa. Quanto mais adentramos no desconhecido que o outro nos apresenta, mais diminuímos preconceitos, mais aprendemos sobre o mundo e, consequentemente, aprendemos sobre nós.


Meu trabalho no consultório é muito gratificante! Conheço vidas, conheço pessoas, conheço diversas realidades. Isso exige em algum nível certo isolamento para reflexão, para estudos leituras, aprofundamentos diversos, contudo, ainda preciso tomar meu café com pessoas. Dou muita importância às amizades e relações, pois sempre me ajudam a ser uma pessoa melhor – no isolamento, preferindo bicho do que gente, evitamos o eterno confronto de se ver e se observar nas projeções que fazemos em nossos amigos, famílias, amores.


Acho que desde 2015 adotei uma postura mais ativa quanto a estes cafés, chamando pessoas para tomar café, até mesmo aquelas que vi uma vez na vida em uma palestra, por exemplo, e, claro, indo nesses cafés depois de marcado. Ao mesmo tempo passei a ser mais concreto quando escuto o famoso “vamos tomar um café qualquer dia?”. Quase sempre respondo que sim, já sugerindo data, horário e local. Evidentemente já levei alguns bolos, afinal “aconteceu um imprevisto” – e quem disse que a vida é algo previsto?


Em vez de ficarmos isolados numa ilha, repetindo nossos padrões no trabalho, vivendo na rotina, reclamando das mesmas coisas, que tal nos relacionarmos mais?


Chame aquele seu amigo bolsominion para conversar, escute-o dizer quanto ele acha que na verdade o Guedes é o grande articulador do governo e que a economia vai bem, tá ok? Ou então, chame aquele seu amigo petista, e escute-o argumentar quanto o Lula foi bom para o país, diminuindo as diferenças sociais e aumentando a distribuição de renda, e EleNão.


Chame aquele seu desafeto para tentar buscar uma solução para a encrenca relacional que vocês se enfiaram. Chame aquele seu afeto para manter a relação, saber das novidades, saber das intempéries que ele tem passado. Conte de você também, há muita coisa a ser dita.


Ou será que no auge das nossas arrogâncias, pensamos ser capazes de lidar com essa infinidade de desafios que nos rodeiam, nos isolando ou nos relacionando somente com aqueles que concordam conosco o tempo todo?


Enfim, tem tempo para um café?