Ainda em Tempo.





03.04.2020



São Paulo, 3 de abril – Páscoa, 2020


Ainda em Tempo.

Por Mirella D’Angelo Viviani


Tempo de estranhamento... um vírus desconhecido ameaça a saúde da humanidade e somos encaminhados para nos recolhermos em isolamento social. Que susto! Que estranho desconhecido é esse que nos ameaça?





Somos, a cada dia, convidados a conviver com essa realidade muito perto de nós, no nosso corpo. Somos separados em pessoas sintomáticas e assintomáticas. Nos desinfetamos a todo momento e nos vemos em um corpo que pode ser um transmissor do vírus.


Nesse tempo, volto-me para me perceber e ver algo além. Olho para dentro de mim e me pergunto: quem é esse estranho desconhecido dentro de mim ou dentro de nós?


Assim, cada um de nós embarca em um Tempo de rever, recriar o que queremos e sobre o que sonhamos.


Este é um convite: abrirmos os olhos para dentro e nos visitar, mergulhar neste estranho desconhecido; mas este não conhecer é o que tanto nos angustia.


Nesse Tempo estamos sendo contaminados por uma onda de introspecção que toma a todos, sem distinção de raça, credo, posição social, lugar do mundo. Nesse Tempo de recolhimento sentimos nossa fragilidade, sentimos o abandono. A dúvida, o não saber, emergem e perdemos o controle sobre o assunto assolador que vivemos. A angustia nos deixa cegos. O desespero nos deixa cegos.


Assim, buscamos algo para crer, algo que apazigue o medo de extinção. A fé que sustenta uma esperança, um vir a ser, uma luz no fim do túnel. É nesse momento que podemos abrir nossos olhos e perceber que a Ordem da Vida continua agindo na catástrofe! Esta ordem que tudo permite e de tudo cuida com sua lei orgânica e amorosa. Uma Ordem que não está sob o poder humano. Uma ordem cujo o valor é a existência. Essa ordem cuida da vida e traz um curso para ela, que acontece independentemente de nossa vontade ou desejo. Uma Ordem que fala sobre a entrega da vida: a Vida.


Damos nomes diversos à esta Ordem e é comum a encaixarmos em uma religião, uma crença, culto, seita, Deus. Esta Ordem é generosa e não escolhe denominações; a chamo de Amor. Sim, Amor. Não como um sentimento, mas como um modo de viver e de perceber a vida, de valorar a existência em tudo e todos. Uma Ordem que ensina sobre o Amor como um ato compartilhado, uma fonte de compreensão junto ao Outro. Um ato de Amor, uma atitude que é com o Outro e não sobre o Outro. Uma Ordem que clama.


Ao que a Ordem da Vida nos convida neste momento desolador?


Podemos sobreviver como os animais, fugir ou matar, ou podemos escutar a Ordem da Vida, que é o Amor falando sobre o que está posto: o convite para lidar consigo mesmo, ficar quieto, encontrar o silencio da alma, do coração, sentir a dor da solidão, o desamparo, o abandono, a redenção. Entrar em contato com o nosso mais íntimo estranho, esquisito.


O que o amor quer que eu escute sobre minha própria vulnerabilidade?


A catástrofe recolhe os pedaços do espelho no qual, antes de ela chegar, nos mirávamos admirados de nós mesmos!


Experimentamos o medo de não existir mais! Medo da morte! Parece que a tal Ordem da Vida, o Amor, nos abandonou: a intensidade deste tempo é a passagem desta época para outra... Passagem para a inclusão do Outro, do que é mais íntimo em nós, O Nós.


O Amor ama cada absurdo exatamente como se apresenta, e em nosso corpo faz sua voz ecoar!


Tempo de seguir no tempo, em tempo, na indomesticável natureza dos fatos, acalentados pelo Amor.


Tempo de revolucionarmos os tempos individuais do Eu para o de bem comum, o Nós.


Tempo de reconhecermos que o Amor é vida que permanece, é carne, corpo, sobrenatural no humano, humano no mistério, é a Ordem da vida.


Mirella D'Angelo Viviani

Coordenadora Clínica do Instituto Casa do Todos

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