A dualidade do protagonismo de carreira: meta ou martírio?





30.05.2018



É comum no mundo corporativo que expressões modistas invadam os escritórios das empresas. Já tivemos o “Empowerment” entre o fim dos anos 90 e começo dos anos 2000 (que atualmente usamos sua versão abrasileirada “Empoderamento”), a “Remuneração por competências” usada ao longo da primeira década dos anos 2000 (que nunca existiu de verdade), a mais recente, de 2010 para cá, “líder coach”, e por fim, a que está na crista da onda, “protagonismo de carreira”.





A questão não é diminuir a importância dessas expressões, pois o Empowerment trouxe uma série de mudanças no modelo de gestão, o “sonho” da remuneração por competências fortaleceu a meritocracia e o modelo líder coach tem sensibilizado os líderes a exercerem sua liderança em formatos novos, embora, ao meu ver, ainda seja cedo para avaliar se isso contribui para alguma mudança crucial e efetiva.


Porém, quero falar da expressão “protagonismo de carreira”. Até uns dias atrás, para mim, protagonista se limitava a uma categoria de prêmios do Oscar®, ou da maneira como chamávamos os atores figurões da Rede Globo em suas famosas novelas.

Mas tudo bem, não estou me fazendo de estúpido, está mais do que clara a metáfora que as empresas quiseram fazer com a mescla de protagonismo e carreira. O problema é que isto está parecendo descontextualizado.


É preocupante.


Mas antes de falar porque é preocupante, primeiro é preciso justificar porque, na minha perspectiva, as empresas adotaram essa expressão – e eu uso a palavra “expressão” porque não dá para afirmar que ela reflita a um modelo.


A questão é que ainda existe um ranço popular de que as empresas deveriam ter um “plano de carreira”, ou seja, um programa determinado e preciso, indicando quanto tempo cada colaborador ficará em cada posição, quando terá aumento de salário, quais áreas ele atuará, etc.


Pois bem, isso não existe.


Entrei no mercado de trabalho em 2001, passei por grandes empresas e nunca vi isso. Talvez tenha existido em algum momento da história, mas faz muito tempo que não existe, ao menos em empresas privadas, que visam o crescimento e sustentabilidade do negócio.


Em algumas poucas áreas, prioritariamente mais operacionais, isso existe. Mas para uma carreira que chamo de “típica”, Analista, Coordenador, Gerente, Diretor, etc., não há um plano, tudo é uma consequência de uma combinação entre capacitação, oportunidade e contexto.


Individualmente, você pode até ter seus planos pessoais “Em X anos quero virar Gerente, em outros X anos, virar Diretor” e por aí vai. Mas é uma prerrogativa individual e não da empresa.


Contudo, o ranço permanece. Basta investirmos 5 minutos num Love Mondays da vida para ver o quanto as pessoas reclamam da empresa não ter um “plano de carreira”. Pois é, e continuará não tendo. Pelo menos não nesse modelo cartesiano.


Parece-me que em algum momento da história houve uma falha de comunicação entre empresas e empregados, com as empresas achando que todo mundo já tinha entendido que o crescimento na carreira simplesmente acontecia, por aqueles fatores que mencionei acima, e os empregados, por sua vez, esperando que houvesse um plano de carreira claro e preciso, aquele que não existe.


Mas as pessoas parecem ainda não saber, ou erroneamente estão transformando exceções em regra.


Para tentar esclarecer esse desentendimento, eis que surge ela, o “protagonismo de carreira”!


Numa tentativa de tentar explicar para as pessoas que elas devem se capacitar por conta própria, que devem buscar novos aprendizados, se aculturarem, se comunicar em outros idiomas, entender o contexto de negócio atuar em conformidade com o esperado, para aí sim, serem consideradas para promoções, méritos, etc., as empresas adotaram a tal expressão “protagonismo de carreira”, como se ela fosse possível de ser compreendida por si só.


Não é. E pior, causa ainda mais desinformação em razão de uma suposta simplificação.


Outro assunto que devo falar qualquer dia desses é a tal “simplificação”, porque ultimamente essa palavra parece ser a solução de tudo, o que é uma estupidez, pois não há simplificação sem a existência do complexo, a existência de um depende da existência do outro (qualquer dia desses explico melhor o que eu quis dizer com isso).


Não se pode apenas adotar expressões como se elas falassem por si. Existem pelo menos duas variáveis a serem consideradas no uso da palavra protagonismo: 1) o contexto sócio, econômico e cultural de um país, ou mais especificamente do Brasil; 2) o que é pressuposto pelas pessoas quando escutam esse termo.


Levando em conta essas duas variáveis, o que as empresas estão falando é “caros empregados, por favor, assumam a responsabilidade pelas suas decisões e faça-as a acontecer”. A questão é que no Brasil, temos um mindset paternalista, ou seja, ainda esperamos que os outros decidam por nós: o pai, a mãe, o Estado, a escola, a polícia, os políticos, o médico, e claro, a empresa!


Quando a empresa vem e fala “seja protagonista”, é como se falasse “você é adulto o suficiente para tomar suas decisões, vire-se”. Não há nada de errado nisso, mas, de novo, no contexto social do Brasil, para absolutamente qualquer nível, isso soa quase que como uma ofensa.


Talvez você individualmente pense, “mas eu não sou assim”. Não tem problema. Faça um rápido exercício mental e você terá rapidamente o nome de 4 ou 5 pessoas que são assim.


Sim, é cultural.


Mas minha intenção não é apontar o dedo e falar “ei empresa, olha o que você está fazendo”. Na verdade o importante é olhar a situação num contexto amplo e não somente adotar uma expressão e achar que tudo está resolvido.


Agora, o que precisamos discutir é se esse termo é de fato o mais apropriado.

Para explicar, vamos voltar ao protagonista dos filmes, e aqui coloco minha opinião estritamente pessoal, e justifico porque não acredito ser esta a melhor palavra para descrever a responsabilidade que cada um deve ter pela própria carreira.


No filme, o protagonista é aquele que tem uma participação fundamental para o a introdução, desenvolvimento e desenlace da história. Mas o ator é protagonista do filme e não do todo.


Em “O senhor dos anéis”, o Frodo foi central na história, mas isso não impediu que o Sam, coadjuvante, cumprisse a missão junto ao Frodo, sem esmorecer, lutando junto e tendo um final que usualmente chamamos de feliz, voltando para o Condado como um herói, casando-se em seguida com a Rose e tendo filhos, colocando inclusive o nome em um deles de “Frodo”.


Se quisermos encaixar a metáfora que as empresas fazem da palavra protagonismo no contexto do filme, o Sam nunca deixou de ser protagonista de si mesmo, uma vez que cumpriu sua missão (ao meu ver até com mais empenho do que o Frodo) com todos os méritos possíveis.


Mas para o contexto do filme, o Frodo foi o tempo o todo o protagonista, por mais que em uma cena ou outra o Sam fizesse importantes aparições.


Não sei se estou sendo confuso nessa parte, mas o que quero dizer é que protagonismo é contextual e não um status perene. Precisamos dar dois ou três passos para trás e relembrar que, ainda na metáfora do filme, algo só pode acontecer quando diversos fatores acontecem em conjunto.


O protagonista do filme é definido por um contexto, reduzido a um filme de duas ou três horas, que é produzido num espectro de relatividades, isto é, só se tem um protagonista porque se tem uma história pré-definida, se tem um roteiro, se tem figurantes, se tem coadjuvantes, dentro outros elementos.


Se mudar qualquer uma dessas variáveis, é possível que o protagonista mude. Supomos que o Frodo morra em sua jornada a Mordor e Sam termine a segunda parte da missão. Seria o Sam protagonista desse filme? Possivelmente sim. Mas todas as outras variáveis: roteiro, história, figurantes, permanecem presentes, alteradas ou não.


Sendo assim, me pergunto: de que maneira exatamente se aplica a metáfora “protagonismo de carreira”, se a posição de protagonista é relativa a um contexto maior?


É possível esboçar uma resposta.


Trata-se de se ter uma postura mais ativa perante os desafios da carreira, assumindo as responsabilidades pela própria capacitação, se colocando a frente para resolver problemas e influenciando outras pessoas para que sejam suas parceiras no enfrentamento dos desafios.


Mas nesse cenário, e ampliando a metáfora, quem são os coadjuvantes? Quem são os figurantes? Quem roteirizou a cena? Quem escreveu essa história?


O que quero dizer é que não há protagonista sem a existência de um contexto, que em si, é mutável e circunstancial, exigindo com que outros tipos de protagonistas tragam consigo suas capacidades para lidar com a questão que se apresenta.


No limite, podemos dizer que cada indivíduo é protagonista de si mesmo, pois todo o resto é relativo a si, tal qual vemos num filme, o protagonista é relativo a algo e não uma condição estática.


Sendo assim, seria correto persistir nessa expressão “protagonismo de carreira”? O que posso dizer é que acho a metáfora infeliz, pois, como venho insistindo ao longo do texto, protagonismo se trata mais do contexto do que das pessoas.


Outra razão por eu achar a metáfora infeliz, é que ela causa um efeito colateral, que é criar nas pessoas a impressão de que não ser protagonista é errado. Ou seja, o que é meta para uns, se torna martírio para outras.


Não adianta termos a ilusão de que se criarmos uma legião de protagonistas teremos um mundo melhor, não é bem assim. Se agora usarmos a metáfora de um coral, não podemos dizer que todos que estão ali são protagonistas. Eles fazem parte de um grupo, de um contexto em que um não é maior ou melhor que o outro, estão unidos para o mesmo fim, em parceria, convictos de que estão no rumo correto, que é apresentar belas canções.


O coral é o protagonista!


Ou cada componente do coral é um protagonista? Bem, aí a palavra fica ainda mais banalizada, porque se for assim, qualquer um é protagonista em qualquer coisa, basta relativizar o contexto o tempo todo.


Precisamos repensar essa mania de sair por aí reproduzindo expressões como se elas fossem a solução para todos os problemas. Um organismo só sobrevive porque tem órgãos principais e secundários. Uma orquestra se torna bela porque existe porque possui harmonia e melodias. Uma empresa só funciona porque tem uma pluralidade de pessoas com capacidades distintas.


Ao exaltar o “protagonismo” passa-se a impressão de que quem não for o tal protagonista, seja lá o que isso for, pois cabem muitas interpretações, não serve. Logo, o efeito esperado, que é a responsabilidade da pessoa pela construção de sua própria carreira se transforma, e vira medo e ansiedade de não estar trabalhando em acordo com o que a empresa espera.


E sabemos que a realidade não exige protagonistas o tempo todo. Tal como num filme, precisamos de protagonistas, de roteiro, etc., etc. etc. Não podemos simplesmente aceitar que ser protagonista é bom e não ser protagonista é ruim.


Crie uma série de protagonistas em sua empresa e leve-a à bancarrota. Promova um ambiente em que as pessoas estejam cientes e orgulhosas de suas responsabilidades, em qualquer nível, conectadas na busca de um objetivo comum e tenha uma empresa próspera.


Isso se chama equipe!


Precisamos repensar o efeito dessas expressões no menor espectro possível, que é cada indivíduo singular, que em última instância, é protagonista de sua própria vida, queiramos ou não.


Existem pessoas, muito competentes, mas que num ato de desespero, entendendo que não cumprem os pré-requisitos do protagonismo, mergulham num universo de ansiedade, medo e insegurança perante a própria carreira, ou seja, o que era para ser algo bom, se transforma em aflição.


E sabemos que pessoas aflitas e inseguras, não entregam o seu melhor em suas atividades. As pessoas querem estar seguras, satisfeitas e reconhecidas por aquilo que entregam, mas taxar suas ações como “uma atitude não protagonista”, só cria um exército de desesperados.


Para finalmente encerrar, digo o seguinte. Precisamos, todos, ter cuidado com modismos para não sair verbalizando qualquer expressão só porque ela parece legal. É necessário entender seu contexto, seu impacto social e cultural no principal afetado nisso tudo, que é o indivíduo singular.


E avançando, precisamos aprender que para mudar aspectos culturais, fazendo com que o indivíduo se sinta responsável pelos próprios atos e decisões, que no fim é isso que as empresas querem, é muito mais complexo do que ficar falando a palavra protagonista pra lá e pra cá.


Precisamos influenciar no modelo educacional de um país, estimular a consciência reflexiva nas pessoas, estimular o pensamento relativista dentro de contextos complexos, que vai desde a interpretação de um texto, até ter repertório amplo o suficiente para conseguir compreender uma metáfora a ponto dela não se apresentar como ameaçadora.


A responsabilidade recai na empresa, para que esta cumpra também com uma função social. Mas também recai nas pessoas, que podem e devem assumir as rédeas de suas vidas, mesmo que isso signifique ser antagonista de padrões insalubres. É preciso coragem.


Agora é com você.

Rafael